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Maquiavel responde: é melhor ser amado ou ser temido?


Publicada em: 09/04/2012

Ao escrever e publicar “O Príncipe”, entre os anos de 1505 e 1515, o pensador renascentista Nicolau Maquiavel (1469-1527) promoveu uma ruptura radical na história do pensamento político. Ocorria que, até então, a teoria do Estado e da sociedade não ultrapassava os limites da especulação filosófica. Em Platão (428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), por exemplo, o estudo desses assuntos vinculava-se à moral, descrevendo ideais de organização política e social, de bons governantes e de sociedades justas. Tratavam-se, no entanto, de reflexões abstratas e descarnadas de materialidade. A cisão promovida por Maquiavel consistiu, então, num choque de realidade. Ele concentrou-se no modo como as sociedades realmente eram, ao invés do modo como seria desejável que elas fossem. Sua inspiração certamente teve muito a ver com o lugar e a época em que viveu. Maquiavel foi personagem do Renascimento. Era cidadão da chamada “República de Florença”, que foi parte do território que hoje conhecemos como sendo a Itália, mas que, àquela época, ainda não havia sido unificada. Pelo contrário, havia ali pelo menos cinco pequenas potências que disputavam entre si a supremacia sobre aquele território, promovendo, assim, instabilidades políticas e sociais, além de infligir terríveis sofrimentos ao povo. O próprio Maquiavel definiu assim a situação daquela “Itália”: mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida do que os persas, mais desunida do que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacerada, invadida, e que suportou toda sorte de calamidades.

 

 


Visando a contribuir com a superação desse caos político e social, o pensador compôs o “O Príncipe”, um verdadeiro guia por meio do qual um príncipe poderia subjugar os povos inimigos e unificar o território italiano sob a autoridade de um único governo, formando, assim, uma nação estável internamente e soberana em relação às forças estrangeiras. É curioso observar, no entanto, que, embora a finalidade original de “O Príncipe” fosse precisamente subsidiar a atividade política, os conselhos nele contidos podem ser interpretados de modo análogo e, desse modo, adotados pelas mais diversas categorias de líderes. Técnicos de times de futebol, professores, pais e gerentes de empresas são alguns exemplos. Todos eles podem fazer uso das polêmicas ideias de Maquiavel. Alguns até o fazem de modo intuitivo, sem jamais sequer ter folheado esse clássico da teoria política. É o caso, por exemplo, daqueles líderes que, se não podem ser amados, esforçam-se por ser temidos.


A esse respeito, Maquiavel se perguntava se, para um príncipe, era melhor ser amado ou ser temido. E dado que ambas as qualidades são mutuamente excludentes, era preciso escolher apenas uma delas. Mas qual seria a melhor? O pensador renascentista concluiu que ser temido é muito mais seguro do que ser amado. Isso porque, segundo ele, dos homens pode-se dizer que geralmente são ingratos, volúveis, dissimulados e ambiciosos. É claro que, enquanto se lhes faz o bem, tudo isso fica oculto sob a pele. Enquanto se está provido abundantemente, não há dificuldade em se lhes comprar o amor e o apoio. No entanto, aquele líder que subitamente se vê em grandes dificuldades, não demora até que também se veja abandonado por seus outrora fiéis colaboradores, ou até mesmo traído por eles. Porque, dizia Maquiavel, “os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que lhes dedica amor do que a quem lhes inspira temor”. Pois toda amizade é mantida por um liame muito tênue, dada a natureza egoísta do homem. Já o temor, por sua vez, é mantido pelo receio de castigo, e esse não desaparece tão facilmente. É isso o que acontece, por exemplo, com aquele funcionário que, por contar sempre com a compreensão e indulgência de seus superiores, não sofre qualquer hesitação de consciência ao faltar ao trabalho ou cometer qualquer outra falha deliberadamente. No outro extremo, no entanto, aquele trabalhador cujos superiores despertam-lhe temor busca guiar-se sempre pela prudência. Ele toma decisões cautelosamente. Busca honrar os compromissos que assume. E esforça-se tanto quanto pode para evitar erros. Isso tudo porque, parafraseando Maquiavel, ele teme as consequências dos seus atos.


Mas os ensinamentos de “O Príncipe”, a despeito das grandiosidades que prometem, devem ser assimilados com muitas reservas. Não são poucas as pessoas que, por terem lido mal a obra, acabam atribuindo ao seu autor o título de criador e justificador moral da tirania. Mas ambas essas ideias são equivocadas. Os fins não justificam os meios. E mesmo para Maquiavel há limites muito claros para o uso do poder. Ao defender, por exemplo, que um príncipe incapaz de fazer-se amado deve fazer-se temido, ele adverte, logo em seguida, que tal governante deve esforçar-se para evitar despertar o ódio de seus colaboradores, posto que, diz ele, “podem muito bem coexistir o “ser temido” e o “não ser odiado””. Há, enfim, muito que se aprender com Maquiavel, mas suas valiosas e polêmicas lições situam-se num terreno escorregadio, onde, não raramente, tiranos confundem autoridade com truculência e temor com terror. É o terreno do poder.

Nicolau Maquiavel (1469-1527) promoveu uma ruptura radical na história do pensamento político

Ao escrever e publicar “O Príncipe”, entre os anos de 1505 e 1515, o pensador renascentista Nicolau Maquiavel (1469-1527) promoveu uma ruptura radical na história do pensamento político. Ocorria que, até então, a teoria do Estado e da sociedade não ultrapassava os limites da especulação filosófica. Em Platão (428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), por exemplo, o estudo desses assuntos vinculava-se à moral, descrevendo ideais de organização política e social, de bons governantes e de sociedades justas. Tratavam-se, no entanto, de reflexões abstratas e descarnadas de materialidade. A cisão promovida por Maquiavel consistiu, então, num choque de realidade. Ele concentrou-se no modo como as sociedades realmente eram, ao invés do modo como seria desejável que elas fossem. Sua inspiração certamente teve muito a ver com o lugar e a época em que viveu. Maquiavel foi personagem do Renascimento. Era cidadão da chamada “República de Florença”, que foi parte do território que hoje conhecemos como sendo a Itália, mas que, àquela época, ainda não havia sido unificada. Pelo contrário, havia ali pelo menos cinco pequenas potências que disputavam entre si a supremacia sobre aquele território, promovendo, assim, instabilidades políticas e sociais, além de infligir terríveis sofrimentos ao povo. O próprio Maquiavel definiu assim a situação daquela “Itália”: mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida do que os persas, mais desunida do que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacerada, invadida, e que suportou toda sorte de calamidades.

 

 


Visando a contribuir com a superação desse caos político e social, o pensador compôs o “O Príncipe”, um verdadeiro guia por meio do qual um príncipe poderia subjugar os povos inimigos e unificar o território italiano sob a autoridade de um único governo, formando, assim, uma nação estável internamente e soberana em relação às forças estrangeiras. É curioso observar, no entanto, que, embora a finalidade original de “O Príncipe” fosse precisamente subsidiar a atividade política, os conselhos nele contidos podem ser interpretados de modo análogo e, desse modo, adotados pelas mais diversas categorias de líderes. Técnicos de times de futebol, professores, pais e gerentes de empresas são alguns exemplos. Todos eles podem fazer uso das polêmicas ideias de Maquiavel. Alguns até o fazem de modo intuitivo, sem jamais sequer ter folheado esse clássico da teoria política. É o caso, por exemplo, daqueles líderes que, se não podem ser amados, esforçam-se por ser temidos.


Mal compreendido, Maquiavel ainda é visto como o justificador de governantes tiranos

A esse respeito, Maquiavel se perguntava se, para um príncipe, era melhor ser amado ou ser temido. E dado que ambas as qualidades são mutuamente excludentes, era preciso escolher apenas uma delas. Mas qual seria a melhor? O pensador renascentista concluiu que ser temido é muito mais seguro do que ser amado. Isso porque, segundo ele, dos homens pode-se dizer que geralmente são ingratos, volúveis, dissimulados e ambiciosos. É claro que, enquanto se lhes faz o bem, tudo isso fica oculto sob a pele. Enquanto se está provido abundantemente, não há dificuldade em se lhes comprar o amor e o apoio. No entanto, aquele líder que subitamente se vê em grandes dificuldades, não demora até que também se veja abandonado por seus outrora fiéis colaboradores, ou até mesmo traído por eles. Porque, dizia Maquiavel, “os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que lhes dedica amor do que a quem lhes inspira temor”. Pois toda amizade é mantida por um liame muito tênue, dada a natureza egoísta do homem. Já o temor, por sua vez, é mantido pelo receio de castigo, e esse não desaparece tão facilmente. É isso o que acontece, por exemplo, com aquele funcionário que, por contar sempre com a compreensão e indulgência de seus superiores, não sofre qualquer hesitação de consciência ao faltar ao trabalho ou cometer qualquer outra falha deliberadamente. No outro extremo, no entanto, aquele trabalhador cujos superiores despertam-lhe temor busca guiar-se sempre pela prudência. Ele toma decisões cautelosamente. Busca honrar os compromissos que assume. E esforça-se tanto quanto pode para evitar erros. Isso tudo porque, parafraseando Maquiavel, ele teme as consequências dos seus atos.


Mas os ensinamentos de “O Príncipe”, a despeito das grandiosidades que prometem, devem ser assimilados com muitas reservas. Não são poucas as pessoas que, por terem lido mal a obra, acabam atribuindo ao seu autor o título de criador e justificador moral da tirania. Mas ambas essas ideias são equivocadas. Os fins não justificam os meios. E mesmo para Maquiavel há limites muito claros para o uso do poder. Ao defender, por exemplo, que um príncipe incapaz de fazer-se amado deve fazer-se temido, ele adverte, logo em seguida, que tal governante deve esforçar-se para evitar despertar o ódio de seus colaboradores, posto que, diz ele, “podem muito bem coexistir o “ser temido” e o “não ser odiado””. Há, enfim, muito que se aprender com Maquiavel, mas suas valiosas e polêmicas lições situam-se num terreno escorregadio, onde, não raramente, tiranos confundem autoridade com truculência e temor com terror. É o terreno do poder.




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