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863 mortos: o suicídio de protesto dos índios Kaiowás


Publicada em: 05/11/2012

De acordo com dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena, subordinada ao Ministério da Saúde, nada menos que 555 índios Kaiowás cometeram suicídio entre os anos 2000 e 2011. A esses se somam outros 308 mortos, estimados para o período de 1986 a 1999 pelo jornalista Bob Fernandes, da TV Gazeta e da Rádio Metrópole. Fazendo as contas, chega-se ao valor de 863 suicídios num intervalo de 14 anos. Porém, esse número não para de crescer e, neste ano de 2012, pelo menos outros 30 suicídios já teriam ocorrido. Com base nesses dados, estima-se que o índice de suicídio nessa população indígena esteja entre 32,5 e 62,01 para cada 100 mil pessoas. Para a Organização Mundial da Saúde, um índice de 12,5 mortes por 100 pessoas já é considerado muito alto. Para que se tenha uma ideia da dimensão desses dados, tenha-se em mente que os países com maiores índices de suicídio no mundo (como Lituânia, Estônia, Rússia, Letônia e Hungria) mal ultrapassam a casa dos 40 casos para cada 100 mil pessoas. No Brasil, o índice geral de suicídios é de apenas 4,9/100.000, uma das menores médias do mundo e que ressalta ainda mais o disparate observado entre os Kaiowás.

 

Membros da etnia guarani, os Kaiowás são povos indígenas que habitam regiões do Paraguai, Bolívia, Argentina e, principalmente, do Brasil, no Mato Grosso do Sul. Acredita-se que eles não tenham tido contato significativo com os colonos europeus e seus descendentes até o final do século XVIII. Com o passar do tempo, porém, especialmente a partir do século XX, com a chegada de descendentes europeus à região, muitos Kaiowás foram expulsos de seus territórios, geralmente por latifundiários e empresas mineradoras. Uma vez retirados de suas terras, eles frequentemente tiveram de buscar trabalho junto aos mesmos latifundiários que ocuparam seu território, recebendo, em troca, pagamentos diminutos. Noutros casos, passaram a viver como mendigos ou prostitutas, expelidos pela vida miserável a que estavam submetidos nas terras que lhe restaram.

 

Segundo o jornalista Bob Fernandes, “os índios no Mato Grosso do Sul têm sido abrutalhados, confinados em espaços cada vez menores. Expulsos de suas terras por decisões judiciais, são mais forçados ainda a se misturarem com outras etnias e raças”. É nesse contexto de perda (do território, da identidade cultural e da dignidade) que se observa que centenas de Kaiowás, tanto adultos como crianças, têm perdido suas vidas na defesa de suas terras ao longo das últimas décadas.


Para piorar, recentemente a Justiça Federal decretou a expulsão de 170 Kaiowás da terra em que vivem atualmente, no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, à margem do Rio Hovy. Diante de mais essa adversidade, os índios divulgaram uma carta dramática, tornando pública sua situação atual e o que estão dispostos a fazer para manter-se na terra: “Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui, na margem do rio, quanto longe daqui. Concluímos que vamos morrer todos. Estamos sem assistência, isolados, cercados de pistoleiros, e resistimos até hoje (…) Comemos uma vez por dia (...) Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais.”

 

A carta dos Kaiowás levou o Conselho Indigenista Missionário (um órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) a esclarecer que “Os índios não cometem nem falam em suicídio coletivo. Falam em morte coletiva no contexto da luta pela terra. Ou seja: se a Justiça e pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, eles estão dispostos a morrerem todos nelas, sem jamais abandoná-las. Vivos eles não sairão do chão dos antepassados.” Ou seja, os índios não deixarão seu território, nem que isso custe suas vidas, coisa que, na verdade, já está acontecendo há décadas. Aos olhos dos Kaiowás, porém, é bastante provável que as estimadas 863 mortes autoinfligidas entre 1986 e 2011 (e as demais que possam estar por vir) não pareçam meros suicídios. Uma morte que ocorre num contexto tão particular, como forma de reação a opressões tamanhas, não pode ser vista como simples suicídio. Trata-se, no mínimo, de um suicídio de protesto.

Membros da etnia guarani, os Kaiowás são povos indígenas que habitam regiões do Paraguai, Bolívia, Argentina e, principalmente, do Brasil, no Mato Grosso do Sul

De acordo com dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena, subordinada ao Ministério da Saúde, nada menos que 555 índios Kaiowás cometeram suicídio entre os anos 2000 e 2011. A esses se somam outros 308 mortos, estimados para o período de 1986 a 1999 pelo jornalista Bob Fernandes, da TV Gazeta e da Rádio Metrópole. Fazendo as contas, chega-se ao valor de 863 suicídios num intervalo de 14 anos. Porém, esse número não para de crescer e, neste ano de 2012, pelo menos outros 30 suicídios já teriam ocorrido. Com base nesses dados, estima-se que o índice de suicídio nessa população indígena esteja entre 32,5 e 62,01 para cada 100 mil pessoas. Para a Organização Mundial da Saúde, um índice de 12,5 mortes por 100 pessoas já é considerado muito alto. Para que se tenha uma ideia da dimensão desses dados, tenha-se em mente que os países com maiores índices de suicídio no mundo (como Lituânia, Estônia, Rússia, Letônia e Hungria) mal ultrapassam a casa dos 40 casos para cada 100 mil pessoas. No Brasil, o índice geral de suicídios é de apenas 4,9/100.000, uma das menores médias do mundo e que ressalta ainda mais o disparate observado entre os Kaiowás.

 

Membros da etnia guarani, os Kaiowás são povos indígenas que habitam regiões do Paraguai, Bolívia, Argentina e, principalmente, do Brasil, no Mato Grosso do Sul. Acredita-se que eles não tenham tido contato significativo com os colonos europeus e seus descendentes até o final do século XVIII. Com o passar do tempo, porém, especialmente a partir do século XX, com a chegada de descendentes europeus à região, muitos Kaiowás foram expulsos de seus territórios, geralmente por latifundiários e empresas mineradoras. Uma vez retirados de suas terras, eles frequentemente tiveram de buscar trabalho junto aos mesmos latifundiários que ocuparam seu território, recebendo, em troca, pagamentos diminutos. Noutros casos, passaram a viver como mendigos ou prostitutas, expelidos pela vida miserável a que estavam submetidos nas terras que lhe restaram.

 

Segundo o jornalista Bob Fernandes, “os índios no Mato Grosso do Sul têm sido abrutalhados, confinados em espaços cada vez menores. Expulsos de suas terras por decisões judiciais, são mais forçados ainda a se misturarem com outras etnias e raças”. É nesse contexto de perda (do território, da identidade cultural e da dignidade) que se observa que centenas de Kaiowás, tanto adultos como crianças, têm perdido suas vidas na defesa de suas terras ao longo das últimas décadas.


No dia 19 de outubro, cinco mil cruzes foram colocadas no gramado da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, como forma de protesto contra o que vem ocorrendo com os índios Guarani Kayowá

Para piorar, recentemente a Justiça Federal decretou a expulsão de 170 Kaiowás da terra em que vivem atualmente, no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, à margem do Rio Hovy. Diante de mais essa adversidade, os índios divulgaram uma carta dramática, tornando pública sua situação atual e o que estão dispostos a fazer para manter-se na terra: “Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui, na margem do rio, quanto longe daqui. Concluímos que vamos morrer todos. Estamos sem assistência, isolados, cercados de pistoleiros, e resistimos até hoje (…) Comemos uma vez por dia (...) Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais.”

 

A carta dos Kaiowás levou o Conselho Indigenista Missionário (um órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) a esclarecer que “Os índios não cometem nem falam em suicídio coletivo. Falam em morte coletiva no contexto da luta pela terra. Ou seja: se a Justiça e pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, eles estão dispostos a morrerem todos nelas, sem jamais abandoná-las. Vivos eles não sairão do chão dos antepassados.” Ou seja, os índios não deixarão seu território, nem que isso custe suas vidas, coisa que, na verdade, já está acontecendo há décadas. Aos olhos dos Kaiowás, porém, é bastante provável que as estimadas 863 mortes autoinfligidas entre 1986 e 2011 (e as demais que possam estar por vir) não pareçam meros suicídios. Uma morte que ocorre num contexto tão particular, como forma de reação a opressões tamanhas, não pode ser vista como simples suicídio. Trata-se, no mínimo, de um suicídio de protesto.




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