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Matrix e o problema da realidade


Publicada em: 19/11/2012

Há aproximadamente treze anos, um problema clássico da filosofia invadiu as salas de cinema do mundo todo. Escrito e dirigido por Andy Wachowski e Lana Wachowski, Matrix conquistou enorme sucesso tanto da crítica como do público, e entrou para a lista dos filmes mais vistos da história. Na trama, o personagem Thomas A. Anderson, vivido pelo ator Keanu Reeves, descobre que sua vida inteira fora uma ilusão, literalmente falando. Assim como quase todo o restante da humanidade, Anderson passara sua existência conectado a uma série de tubos e dispositivos que projetavam em sua mente um mundo virtual. Esse gigantesco e extremamente convincente universo era chamado de “Matrix”. Uma vez conectado a ele, Anderson e os demais seres humanos tinham sensações de um mundo que só existia em suas mentes. Assim, os cheiros, os sabores, os sons, as texturas e as cores de tudo com o que Anderson estivera acostumado nada mais eram do que ilusões projetadas pela Matrix.

 

Para libertar-se da escravidão imposta por esse universo fantasioso, Anderson foi auxiliado pelo idealista e guerreiro de nome “Morpheus”. Alguns dos momentos mais impactantes de todo o filme ocorrem com esse personagem. Dialogando com seu pupilo, Morpheus lhe indaga:

 

O que é real? Como você define o real? Se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro.

 

Noutro trecho, Morpheus volta a provocar:

 

Já teve um sonho (...) que você tinha certeza de que era real? E se você não conseguisse acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o sonho e o mundo real?

 

Apesar de todo o alvoroço causado pelo filme, nenhuma dessas questões era nova. Talvez, de fato, suas formulações o fossem. Mas a essência desses questionamentos já era discutida havia milhares de anos antes de os irmãos Wachowski escreverem e dirigirem Matrix. Na Filosofia, essas discussões geralmente são tratadas no ramo da Metafísica, que, descrita de modo bastante superficial, busca responder a questões fundamentais sobre a natureza da realidade. Uma das primeiras e mais conhecidas teorias da Metafísica foi proposta pelo filósofo grego Platão, que viveu há, aproximadamente, 2400 anos. De acordo com o pensador, o mundo que observamos cotidianamente é uma representação imperfeita da realidade, assim como as sombras são representações simplórias dos objetos. A verdadeira realidade, dizia Platão, está oculta de nossos sentidos e só pode ser conhecida por meio da razão.


Muitos outros pensadores renomados se debruçaram sobre esse problema. Descartes, por exemplo, que viveu entre 1596 e 1650, permitiu-se duvidar de toda a realidade que os sentidos lhe informavam. "Se os sentidos nos enganam às vezes”, dizia o filósofo, “como garantir que eles não nos enganam o tempo todo?”. Descartes foi além e, como que antecedendo o discurso de Morpheus, começou a duvidar se estava dormindo ou acordado:

 

Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro do meu leito? Parece-me agora que não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está dormente; que é com desígnio e propósito deliberado que estendo esta mão e que a sinto: o que ocorre no sono não parece ser tão claro nem tão distinto quanto tudo isso. Mas, pensando cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios concludentes, nem marcas assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado: e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo.”

 

Depois de 2500 anos de filosofia e das contribuições de pensadores como Descartes e Platão (além de outros tantos, como Kant, Galileu, Locke e Hume, por exemplo), o roteiro para Matrix estava praticamente pronto, restando aos irmãos Wachowski apenas o trabalho de filmar.

Escrito e dirigido por Andy Wachowski e Lana Wachowski, Matrix conquistou enorme sucesso tanto da crítica como do público, e entrou para a lista dos filmes mais vistos da história. Na trama, o personagem Thomas A. Anderson, vivido pelo ator Keanu Reeves, descobre que sua vida inteira fora uma ilusão chamada "Matrix", projetada em sua mente por computadores poderosos

Há aproximadamente treze anos, um problema clássico da filosofia invadiu as salas de cinema do mundo todo. Escrito e dirigido por Andy Wachowski e Lana Wachowski, Matrix conquistou enorme sucesso tanto da crítica como do público, e entrou para a lista dos filmes mais vistos da história. Na trama, o personagem Thomas A. Anderson, vivido pelo ator Keanu Reeves, descobre que sua vida inteira fora uma ilusão, literalmente falando. Assim como quase todo o restante da humanidade, Anderson passara sua existência conectado a uma série de tubos e dispositivos que projetavam em sua mente um mundo virtual. Esse gigantesco e extremamente convincente universo era chamado de “Matrix”. Uma vez conectado a ele, Anderson e os demais seres humanos tinham sensações de um mundo que só existia em suas mentes. Assim, os cheiros, os sabores, os sons, as texturas e as cores de tudo com o que Anderson estivera acostumado nada mais eram do que ilusões projetadas pela Matrix.

 

Para libertar-se da escravidão imposta por esse universo fantasioso, Anderson foi auxiliado pelo idealista e guerreiro de nome “Morpheus”. Alguns dos momentos mais impactantes de todo o filme ocorrem com esse personagem. Dialogando com seu pupilo, Morpheus lhe indaga:

 

O que é real? Como você define o real? Se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro.

 

Noutro trecho, Morpheus volta a provocar:

 

Já teve um sonho (...) que você tinha certeza de que era real? E se você não conseguisse acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o sonho e o mundo real?

 

Apesar de todo o alvoroço causado pelo filme, nenhuma dessas questões era nova. Talvez, de fato, suas formulações o fossem. Mas a essência desses questionamentos já era discutida havia milhares de anos antes de os irmãos Wachowski escreverem e dirigirem Matrix. Na Filosofia, essas discussões geralmente são tratadas no ramo da Metafísica, que, descrita de modo bastante superficial, busca responder a questões fundamentais sobre a natureza da realidade. Uma das primeiras e mais conhecidas teorias da Metafísica foi proposta pelo filósofo grego Platão, que viveu há, aproximadamente, 2400 anos. De acordo com o pensador, o mundo que observamos cotidianamente é uma representação imperfeita da realidade, assim como as sombras são representações simplórias dos objetos. A verdadeira realidade, dizia Platão, está oculta de nossos sentidos e só pode ser conhecida por meio da razão.


Como garantir que neste momento estejamos acordados ao invés de dormindo? Esse problema, de certo modo tratado em Matrix, já havia sido analisado pelo pensador Descartes 

Muitos outros pensadores renomados se debruçaram sobre esse problema. Descartes, por exemplo, que viveu entre 1596 e 1650, permitiu-se duvidar de toda a realidade que os sentidos lhe informavam. "Se os sentidos nos enganam às vezes”, dizia o filósofo, “como garantir que eles não nos enganam o tempo todo?”. Descartes foi além e, como que antecedendo o discurso de Morpheus, começou a duvidar se estava dormindo ou acordado:

 

Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro do meu leito? Parece-me agora que não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está dormente; que é com desígnio e propósito deliberado que estendo esta mão e que a sinto: o que ocorre no sono não parece ser tão claro nem tão distinto quanto tudo isso. Mas, pensando cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios concludentes, nem marcas assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado: e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo.”

 

Depois de 2500 anos de filosofia e das contribuições de pensadores como Descartes e Platão (além de outros tantos, como Kant, Galileu, Locke e Hume, por exemplo), o roteiro para Matrix estava praticamente pronto, restando aos irmãos Wachowski apenas o trabalho de filmar.




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